NÃO
ENTRE EM PÂNICO.
Chegou a
vez de falar sobre mais uma maratona literária, um grande ícone da
cultura pop. Um hit imortal do mundo nerd que é adorado por todos.
Sim, estou falando dele: O Guia do Mochileiro das Galáxias. A
famosa trilogia de cinco livros, que era pra ser de quatro, mas
acabou sendo de seis. Não entendeu? Sem problema, explicarei mais
adiante.
O enredo
tem várias linhas, mas geralmente segue o protagonista Arthur Dent.
Um cidadão britânico comum que ao acordar em um belo dia descobre
que sua casa será demolida para dar espaço a uma via expressa. Isso
certamente seria muito grave se o Planeta Terra não estivesse pra
ser destruído por vogons a fim de dar espaço para uma via expressa
interestelar. Quem salva Arthur do fim do mundo é seu amigo
betelgeusiano Ford Prefect, um redator do Guia que passou os
últimos quinze anos na Terra fazendo pesquisa de campo. Mas claro
que Arthur desconhecia esses detalhes. Na verdade, há muitas coisas
que ele desconhece.
Logo se
juntam a Zaphod Beeblebrox, semi-primo de Ford e Presidente da
Galáxia, e Trillian, outra sobrevivente da Terra e que Arthur
conheceu numa festa em Islington. E sem esquecer Marvin, o androide
paranoide. Juntos e a bordo da Coração
de Ouro, eles passam a viajar pelo universo enfrentando
perigos para descobrir a resposta ao enigma fundamental. Ou melhor, a
pergunta. Pois a resposta eles já tem. Se quiser saber que zark isso
significa, vai ter que ler os livros.
Nota
do Guia: Termos e expressões dos livros serão usados no post a fim
de despertar curiosidade.
A
história surgiu como um programa de rádio da BBC, idealizado
por Douglas Adams em 1977 mas que só foi ao ar em 1978. O sucesso
foi tanto que o autor foi persuadido a trazer essa louca aventura
intergaláctica para o papel, e os cinco primeiros livros foram
publicados entre 1979 e 1992. Depois ganhou adaptações teatrais,
uma minissérie de TV (BBC, 1981), videogames, um filme
(Touchstone Pictures, 2005) e até versões em toalhas. Todos
seguem o mesmo enredo básico, intercalando as aventuras de nossos
heróis com as notas do Guia. Que nunca são desnecessárias e
nem afetam o ritmo da narrativa. A não ser no último livro.
(Explicações mais adiante.)
Meu
primeiro contato com Mochileiro foi em 2005, numa aula de
inglês quando a Professora passou para a turma um pedaço do filme.
E não vou negar, eu não tinha gostado. Achei confuso, e também eu
era muito nova. O fato é que não tinha me interessado. Mas esse
ano li algumas criticas e resenhas dos livros que despertaram minha
curiosidade. Então resolvi me aventurar pela versão escrita,
comprei toda a série original e foi amor à primeira página. Me
apaixonei pelos personagens e Universo malucos construídos por
Adams. Além, é claro, do seu humor ácido e críticas sociais, que
conseguem ser sutis e severas ao mesmo tempo.
Douglas
Adams usou da ficção científica e do sarcasmo para criar um
Universo tão bizarro que só pode ser real. Aliás, universos que só
podem ser reais. É tudo muito estranho, mas ao mesmo tempo muito
parecido com o que vivemos. E apesar de geralmente levar para um lado
engraçado, há algo bastante significativo nos textos. O tipo de
coisa que você ri e pensa “Putz! É assim mesmo.”
A série
de livros era pra originalmente ser composta por quatro livros (mesmo
que muitos chamem de trilogia): O Guia do Mochileiro das Galáxias,
O Restaurante no Fim do Universo, A Vida, o Universo e Tudo
Mais e Adeus, e Obrigado pelos Peixes. Esses quatro livros
foram publicados entre 1979 e 1984. Mas o fãs queriam mais, e tanto
pediram que em 1992 Adams escreveu e publicou Praticamente
Inofensiva. Esse seria o fim da série pela vontade de seu
criador. E com a morte de Adams em 2004 pareceu que assim seria. Mas
como o Universo não passa de uma mistureba generalizada onde nada é
uma certeza absoluta, em 2006 o autor Eoin Colfer resolveu escrever
um sexto volume: E Tem Outra Coisa... Mas não foi lá muito
feliz.
Existem
diferenças claras. Os livros de Adams são finos, mas com uma
quantidade absurda de conteúdo. A narrativa é ágil, centenas de
coisas acontecem um poucas páginas e ele consegue fazer você rir e
refletir em um mesmo trecho naturalmente. Já o livro de Colfer é
bem maior, mas com uma narrativa lenta e por vezes cansativa. As
tentativas de imitar o humor de Adams são falhas e sua crítica
social soa forçada e até repetitiva. E as notas do Guia que
Adams sempre escreveu de forma que parecessem fazer parte da
história, Colfer transformou em encheção de linguiça. Adams tem
capítulos curtos, mas nunca com interrupções desnecessárias. Já
os de Colfer são longos e cansativos. Não digo que o livro de
Colfer é totalmente ruim e nem que queria que ele escrevesse como
Adams, cada escritor tem seu estilo. Mas fez a essência se perder.
Em resumo, Colfer fez uma jebalança com a história de Adams.
Enfim.
Além dos livros, acabei de ver a minissérie de TV. Claro que
deve-se dar um desconto aos efeitos devido à época, mas estragaram
a Trillian e Marvin. E logo pretendo dar uma segunda chance ao filme.
Pois agora que conheço a história e entendo, talvez eu goste dele.
Até porque com Martin Freeman no papel Arthur, a tentativa vale
super a pena.
A série
foi trazida ao Brasil pela editora Brasiliense, mas as edições
mais recentes encontradas são da editora Arqueiro. O Guia
do Mochileiro das Galáxias é altamente recomendável para quem
gosta de aventura e das incertezas do Universo. Além de boas
metáforas feitas na base do sarcasmo. Se esse é o seu caso, pegue a
sua toalha e embarque na próxima nave. Mas nunca se esqueça de
tomar cuidado com os vogons e sempre seguir o lema do Guia: Não
entre em pânico.