Nome:
Perdão, Leonard Peacock
Autor:
Matthew Quick
Edição:
1/2013
Editora:
Intrínseca
Páginas:
224
Sinopse: Hoje
é o aniversário de Leonard Peacock. Também é o dia em que ele
saiu de casa com uma arma na mochila. Porque é hoje que ele vai
matar o ex-melhor amigo e depois se suicidar com a P-38 que foi do
avô, a pistola do Reich. Mas antes ele quer encontrar e se despedir
das quatro pessoas mais importantes de sua vida: Walt, o vizinho
obcecado por filmes de Humphrey Bogart; Baback, que estuda na mesma
escola que ele e é um virtuose do violino; Lauren, a garota cristã
de quem ele gosta, e Herr Silverman, o professor que está agora
ensinando à turma sobre o Holocausto. Encontro após encontro,
conversando com cada uma dessas pessoas, o jovem ao poucos revela
seus segredos, mas o relógio não para: até o fim do dia Leonard
estará morto.
Comentários:
Desde
que li O Lado Bom da Vida tive certeza de que precisava ler
qualquer coisa escrita por Matthew Quick. Adquiri Perdão, Leonard
Peacock não muito depois de seu lançamento no Brasil, e apesar
da ansiedade pela leitura e só encontrar elogios ao livro ele por
algum motivo que não sei definir foi ficando. Enfim decidi não
esperar mais (em parte porque outros dois livros do autor já
foram lançados em nosso país) e conferir o que essa
história guardava para mim.
Leonard
Peacock toma o café da manhã no dia de seu aniversário de 18 anos
olhando para uma herança de família, a P-38 que seu avô paterno
tirou do soldado nazista que matou em batalha. É com ela que o
garoto planeja matar seu ex-melhor amigo e atual valentão do colégio
Asher Beal, e em seguida se suicidar. Mas antes ele precisa entregar
presentes para quatro pessoas com quem se importa e que não quer que
se sintam culpadas pelo que ele vai fazer: Walt, o vizinho idoso que
o apresentou aos filmes de Bogart; Baback, o colega vindo do Irã
cujos ensaios de violino muitas vezes eram a única coisa bonita no
dia de Leonard; Herr Silverman, o professor de Holocausto que tem uma
forma diferenciada de dar aula; e Lauren, a garota cristã que
distribui panfletos evangelizadores no metrô e por quem ele se
apaixonou.
Desde
as primeiras frases é perceptível o quão frágil é o estado
emocional de Leonard, um garoto superinteligente com uma visão
diferenciada do mundo que se sente abandonado e incompreendido. Pais
ausentes e totalmente alheios a sua criação, colegas de classes que
o menosprezam e traumas da pré-adolescência o deixam com a sensação
de estar deslocado no mundo. Ao decorrer do enredo vemos o desenrolar
de 24 horas na vida de Leornad, o dia que ele promete ser o último,
entremeado por flashbacks que contam como conheceu cada uma das
pessoas que quer presentear e porque elas são importantes, e dos
fatos que o marcaram tão negativamente. Tudo relatado de forma que
permite se colocar em seu lugar e refletir sobre o que o personagem
pretende fazer, e principalmente o que faria para ajudá-lo e o
convencer a mudar de ideia.
É
extremante comum a sociedade julgar pessoas com tendências suicidas
de forma menospreziva e até caricata, principalmente nos últimos
anos em que os assassinatos-suicídios de adolescentes tem se tornado
uma constante nos noticiários. Perdão, Leonard Peacock nos
força a rever conceitos em um jogo de moral como Herr Silverman
fazia em sala de aula, pedindo que algum aluno levantasse uma questão
e pedindo aos demais que debatam o certo a ser feito. No caso você
tem um adolescente com pais negligentes, que sofreu abuso, é
constantemente humilhado na escola e ninguém percebe o quanto está
sofrendo mesmo com todos os sinais que dá. O que você faria?
O
que torna o livro tão intenso e angustiante é a verossimilhança para
com os personagens e fatos apresentados. Leonard, apesar de toda a
perturbação emocional, é um garoto extremante carismático e fácil
de se apegar. De todos os demais personagens apresentados os mais
cativantes (e que pareceram de fato se importar e entender Leonard)
são Walt e Herr Silverman. Walt é aquele tipo de idoso querido que
quer aproveitar o pouco de vida que lhe resta fazendo o que mais
gosta, e foi o primeiro a perceber que havia algo errado com Leonard
no dia. Já Herr Siverman é daqueles professores que querem fazer a
diferença na vida dos alunos fazendo-os pensar por conta própria,
mesmo que não reconheçam isso. Ele é de longe o que mais tem
capacidade e conhecimento para ajudar o garoto, mesmo que em tal
situação seja difícil para alguém que precisa de (e quer) ajuda
reconhecer isso.
A
narrativa feita na primeira pessoa na perspectiva de Leonard relata
os acontecimentos que se desenrolam e fatos passados de forma fluída,
a capitulação curta e o humor peculiar contribuem para uma leitura
ágil. Verdade seja dita, as páginas passam compulsivamente pelos
desejos de saber o que levou o personagem a tomar tal decisão, quais
são os presentes que ele quer dar e por quê e se ele concluirá o
plano ou algo o fará mudar de ideia. A alienação de seus pais
certamente é um fator importante, e chega a dar muita raiva da mãe
(o pai já não faz parte da vida dele) pela postura dela diante dos
problemas do filho. Mas o motivo mais profundo, o que levou Leonard a
deixar de ser amigo de Asher e querer matá-lo, só é dito mais para
o final do livro embora algumas pistas sejam dadas no decorrer da
trama. Vemos que Asher também é uma vítima, o próprio Leonard
reconhece isso. Mas nenhum dos dois encontrou abertura necessária
para pedir ajuda, e quando tentavam ninguém via a seriedade do caso.
Isso nos faz pensar numa realidade triste, o que nos faz refletir
sobre a pergunta que o protagonista faz constantemente: Qual é o
problema dos adultos?
Uma
coisa que achei bem interessante são as notas de rodapé. O
diferencial é que não são notas do autor ou tradutor, mas do
protagonista. Elas funcionam como parenteses na história,
explicações que não cabem na narrativa principal. Como quando você
está contando algo para alguém e precisa abrir uma brecha para
relatar um outro fato que te levou a tomar certa decisão no
primeiro. Embora sejam muitas notas e em algumas páginas elas
cheguem a ocupar mais espaço que a narrativa principal elas não
prejudicam em nada a fluidez da leitura. Na verdade até contribuem
para a verossimilhança da trama. Assim como as cartas do futuro, que
mais tarde se descobrem um exercício passado por Herr Silverman e
que tem grande simbologia sobre os sentimentos de Leonard.
Perdão,
Leonard Peacock é um livro que trata de assuntos muito sérios
e até pesados, mas de forma alguma é um livro depressivo. É
extremante reflexivo, fazendo o leitor querer ser mais observador com
as pessoas ao redor e estar mais a disposição. O final aberto não
só é condizente com a trama como contribui para que o leitor
continue refletindo a respeito. Dando sequência ao jogo de moral. O
que você faria?