Do clichê
ao surpreendente.
Que
grande surpresa essa série. Se de início parecia que não tinha
muito futuro, que não tinha muitos caminhos por onde ir, isso mudou
com o andar da carruagem. Mostrou que o caminho pode ser longo, e
quando você acha que sabe por onde vai tudo muda de direção. E
mesmo quando acontece o esperado, não é bem da forma que se
esperava. Não sei vocês, mas gosto muito desse tipo de série.
Minha
reação inicial foi que mesmo tendo uma boa proposta, Gang
Related seria mais do mesmo. Mas gradativamente minha opinião
foi mudando para “muito bom mas falta algo” até chegar em “isso
ainda vai ser genial”. Claro que não chegou ao ponto de ser
viciante, mas pode muito bem chegar a esse patamar na próxima
temporada. Pois se mostrou uma série que gosta de arriscar, e mesmo
quando faz uso de um clichê é tão bem feito que você não liga.
Quando
digo que a série se arriscou, não foi pouco não. Teve uma boa
quantidade a mais de violência e sangue do que se costuma ver na TV
aberta. Nada escrachado como HBO ou Starz, mas cenas de
contexto forte. Todavia, arriscaram mesmo foi no enredo e nos
personagens. Todo mundo tem algo a esconder, tornando a linha entre
bem e mal meio cinzenta e difusa. A Task Force teve atitudes um tanto
subversivas, e você só não recrimina tanto por que os bandidos conseguem
ser piores. Principalmente no episódio sobre tráfico humano. O
assunto foi tratado de forma bem diferente do que se vê, foi ousado.
Mas é triste em minha condição de ser humano saber que existe
gente capaz de criar e vender pessoas como se fossem cães. Sendo que
nem cães deveriam ser criados dessa forma.
Ainda
sobre os personagens, dou uma salva de palmas para vários plots. Um
que saltou aos meus olhos foi o de Vee. Muito se fala sobre a
importância de se abordar assuntos polêmicos, mas nos últimos
tempos pouco se viu falar sobre AIDS. Parece até que encontraram a
cura. A forma como Vee foi exposta ao vírus e sua angustia pra saber
se o tem foram bem construídas e dignas de empatia. E Tae, que
parece ter fugido de um passado ainda mais nebuloso que o de Ryan na
Coreia, cujo qual ainda pode ser muito explorado. Precisando ainda
manter a irmã numa casa de repouso, em que a administradora parece
uma mercenária de primeira. E foi mais legal ainda ver esses dois
personagens de história tão difícil se apoiando tanto.
Os
personagens centrais evoluíram maravilhosamente. Daniel de
almofadinha sem graça teve uma grande mudança marcada pelo seu
cativeiro, e vem se tornando um mostro. Carlos não lidou nada bem
com o fato de ter ficado paraplégico, e não foram raras as vezes em
que eu quis que ele fizesse um Walkabout. Mas na reta final ficou
visível que ele também está mudando, e gostei muito da forma como
deixaram no ar se essa transformação será para pior ou melhor.
Agora Ryan... Que show de transformação! Foi muito bom vê-lo
começar a questionar os seus princípios e tomar atitudes por si
mesmo. Lindo ver como foi motivado pelo seu relacionamento com
Jéssica, e como os tristes acontecimentos o levaram a perceber quem
realmente se importa com ele. Seu confronto com Javier na prisão foi
épico.
Não é
segredo que comecei a ver Gang Related por causa do Terry
O'Quinn, e foi ótimo vê-lo em um personagem tão instigante. Desde
(F)Locke não o via e um personagem ambíguo, e fiquei feliz com
isso. Sam Chapel me deixou louca de dúvida. Uma hora achava que
confiava cegamente em Ryan e outra hora achava que sabia de tudo e já
recrutou Ryan com um plano maquiavélico de dar corda pro coitado se
enforcar e destruir toda a gang dos Los Angelicos. E na verdade até
agora não sei. Mas aquele final... Nossa mãe! Foi impossível não
chorar junto com ele ao encontrar a filha morta daquele jeito. A
relação de Chapel com Jessica sempre foi difícil, mas ficou
visível o quanto a amava e se arrependia. Foi de cortar o coração.
Seu espírito de vingança foi contagiante. E o confronto com Matias
(aqui devo dizer que Amaury Nolasco foi um grande acréscimo ao
elenco e espero que se torne fixo) foi além de surpreendente um show
de atuação.
Uma
grande marca das séries policiais é o fato da equipe se tratar como
uma família, e com a Task Force não foi diferente. Verdade que todo
mundo tem algo a esconder, mas acho que isso deu uma tom de realidade
a mais. Mas esse sentimento de família ficou visível mesmo no
finale, quando todos deixaram seus distintivos de lado para
acompanhar Chapel na vingança pela trágica e inesperada morte de
Jessica. Foi bonito de se ver. E isso será importante para Ryan
agora que escolheu uma família para ser totalmente leal. Só temo
pelo momento que descobrirem tudo.
Gang
Related fugiu do procedural comum em séries do seu gênero para
desenvolver plenamente sua trama central, o que foi um grande acerto.
E ainda assim teve ótimos casos, sendo que todos estavam de certa
forma conectados. Afinal, a intenção era de mostrar Ryan fazendo
seu trabalho como policial e ao mesmo tempo impedindo que os Acosta
fossem presos. Não poderia continuar assim pra sempre, então tratou
de fazer uma reviravolta magnífica. Sobretudo, acho que Gang
Related cumpriu muito bem sua proposta. De mostrar que todo ser
humano é capaz de um ato de barbaridade, de manter um lado negro.
Mas que mesmo no meio de tanta atrocidade há quem possa querer e
fazer o bem. E espero que a série seja renovada para a 2ª temporada
e continue evoluindo cada vez mais.
Média: 9,12
Média: 9,12