Em 1990 o
assassinato da jovem Laura Palmer na série Twin Peaks
revolucionava a forma de se fazer televisão. Não só pelas
ferramentas utilizadas na série em prol de sua investigação, mas
por tratar de assuntos ainda tidos como tabus para a época como a
sexualidade e o uso de drogas entre adolescentes. Em 2013 surgia a
Detetive Stella Gibson em The Fall, que além de investigar a
morte de jovens mulheres assassinadas por um serial killer possui uma
visão muito clara sobre como as mulheres continuam sendo subjugadas
em um mundo ainda predominantemente masculino. Mas... e se o caminho
das duas tivessem se cruzado?
É bem
verdade que considerando os fatos sobrenaturais relativos à morte de
Laura sua investigação fosse mais adequada a outra personagem de
Gillian Anderson, a Agente Dana Scully de The X-Files. (Sendo
que seu parceiro nesta, David Duchovny, chegou a fazer uma
participação em Twin Peaks como um Agente do FBI travesti.
Outro assunto tabu até hoje.) Mas deixando o fator místico de lado,
consideremos apenas os fatores comportamentais e humanos. Uma
adolescente com dois namorados e que se encontrava secretamente com
um terceiro homem, que chegou a trabalhar como acompanhante numa casa
noturna, usava cocaína (entre outros hábitos vistos como
subversivos pela sociedade) aparece morta. Esse é um caso que
certamente interessaria à Stella.
A
Detetive Gibson é uma mulher forte e imponente, que não aceita a
forma como os privilégios e deveres de homens e mulheres são
divididos. Bem como a forma como as mulheres costumam ser
caracterizadas, certa vez ela chegou a mencionar que a sociedade
gosta de dividir as mulheres entre anjos e vadias. Se uma moça
virgem ou dona de casa é brutalmente assassinada então algo precisa
ser feito. Mas se for uma prostituta, quem se importa? Um claro sinal
de como o mundo ainda é sexista. E por essas observações críticas
da Detetive que acredito que seria muito interessante ver quais
seriam suas perspectivas sobre Laura. A garota que até o momento de
sua morte era vista por muitos como uma jovem ingênua.
A Rainha
do Baile que trabalhava no restaurante levando comida para as pessoas
que já não podiam sair de casa e dava aulas particulares para um
garoto autista era a Laura que todos conheciam. Poucos sabiam daquilo
que só veio à tona com seu cruel assassinato, e ainda assim ninguém
sábia de absolutamente tudo. Em suma, Laura Palmer era uma garota
doce, gentil, deprimida, confusa e que precisava de ajuda. O que ela
passou em casa, lugar onde deveria se sentir protegida, a fez
procurar por um modo de se libertar e de alguma forma se sentir
segura ou dona de seus atos. Seu pai era abusivo (fato que só foi
mostrado no filme mas ficou subentendido na série) e seu chefe a
obrigou a se prostituir, esse resumo básico do que lhe foi imposto
já é motivação suficiente para seus atos desesperados.
O que
Stella diria de um pai que abusa da filha a ponto da garota procurar
nas drogas uma fuga da realidade? E do grande empresário respeitado
por toda a região que usava a perfumaria de seu hotel como fachada
para selecionar garotas para o bordel do qual era sócio? Ela
certamente falaria algo sobre como as mulheres são criadas desde de
antes de entender o que acontece ao seu redor para viver em um mundo
onde os homens acham que tudo deve ser para servi-los. E então
quando se veem numa situação dessas, em que não conseguem fugir e
ainda acabam tomando decisões erradas são apenas elas as culpadas.
Justiça
seja feita, nem o Agente Cooper ou o Xerife Harry ou qualquer membro
da Polícia de Twin Peaks jamais julgou Laura por suas escolhas. O
que quis mostrar nesse texto foi como duas personagens completamente
distintas, com mais de vinte anos separando as produções das quais
fazem parte são capazes de mostrar uma mesma coisa. Que apesar das
mulheres já terem conquistado tanto, a igualdade ainda não foi
totalmente alcançada. Ainda existem coisas e atitudes tidas como
masculinas ou femininas. E que mesmo que façam a mesma coisa, elas
são culpadas e eles não.