Sempre surgem séries novas, muitas delas (pra não dizer boa parte) são canceladas ainda em sua primeira temporada. Enquanto algumas, além de merecer, nos fazem perguntar como diabos aquela coisa chegou a ser aprovada para a TV, outras geram uma verdadeira lástima por serem interrompidas abruptamente. E, na maioria dos casos, sem um desfecho adequado. Apenas porque seu público não gera lucro suficiente para a emissora.
Quando
comecei essa vida de seriadora assídua ficava chateada com cada
série que era cancelada. Afinal, em meus primeiros anos a maioria
das novas séries que eu adotava logo eram canceladas. E pra piorar,
larguei uma quantidade considerável das que continuaram por terem
perdido o rumo e se tornado monótonas. Mas voltando as canceladas,
eram tantas em minha grade que já não sabia se era eu que não
sabia escolher ou o meu gosto que simplesmente não combinava com o
da “maioria”. Tudo bem que meu processo seletivo não era lá
muito exigente, mas mesmo assim ficava chateada.
Com o
tempo fui notando uma queda de qualidade nas novas séries e os
cancelamentos deixaram de ser tão trágicos. Na temporada 2013/2014
muitas emissoras cancelaram grande parte de suas novas séries, e
consequentemente muitas das minhas novas séries. (Sem considerar as
veteranas.) Não direi que não senti por esses cancelamentos, apenas
que um ou outro foram realmente lamentáveis. Nessa temporada a
situação melhorou um pouco, vi uma quantia menor de minhas novas
séries serem canceladas. Mas o cancelamento de Forever me
deixou chateada de uma forma que já não ficava há tempos.
Voltei a
me perguntar qual é o problema das pessoas. Por que não gostaram de
Forever? Uma história tão bonita, leve, divertida,
emocionante e ágil quando precisa. Personagens carismáticos do tipo
que envolve e cativa quem acompanha. Uma trama que mistura
investigação, história mundial e uma pitadinha de sobrenatural.
Sempre conduzida por ótimos diálogos e uma bela narração feita
pelo protagonista. Aí pergunto, do que exatamente o público
americano não gostou?
A série
foi criada por Matt Miller, que atuou como produtor executivo de
Chuck (uma das minhas séries favoritas). Vi uma entrevista
onde Miller explicou como surgiu Forever. Certo dia seu filho
Henry, então com 5 anos, perguntou se ele iria morrer. Miller foi
sincero e respondeu que sim, um dia ele morreria como todos. O
menino, obviamente, ficou triste e disse que não queria que ele
morresse nunca. Então surgiu a ideia de criar um personagem que
nunca morresse, mas com tempo percebesse que isso é mais uma
maldição do que uma benção. E assim nasceu Henry Morgan.
Henry
Morgan é um dos personagens mais fascinantes que já tive o prazer
de conhecer. Mas o fato de ter mais de 200 anos de idade e nunca
morrer não são seus únicos atrativos. Na verdade ele até morre,
mas sempre ressurge no rio mais próximo e com a aparência de 35
anos. Idade que tinha em sua primeira morte. Ele não sabe como
exatamente isso começou e não sabe como acabar. Nos tempos atuais
ele vive em Nova York onde trabalha como médico legista. (Percebam a
ironia de um homem que nunca morre trabalhar com mortos.) Por já ter
morrido diversas vezes e de diversas formas ao longo de 200 anos ele
executa uma autópsia com verdadeira maestria. Sendo capaz de dizer
se foi acidental ou assassinato só de olhar.
Nesse
primeiro momento parece uma trama pesada, trágica e mórbida certo?
Mas é justamente o contrário. Isso porque Henry tem um jeito todo
especial de ser. Imaginem um personagem que combine o dom para a
medicina do Dr Gregory House de House M.D., o dom
investigativo de Sherlock Holmes e toda classe de um verdadeiro Lorde
inglês e sabedoria de quem já viveu 200 anos de Ichabod Crane.
Somando ainda o talento para observação e dedução de todos os
três. Este é Henry Morgan, um personagem tão bem construído que
ao invés de parecer uma colcha de retalhos (como poderia) se tornou
único e singular. Henry tem uma visão peculiar sobre a vida, já
ganhou e perdeu muito em sua longa jornada. Descobriu das piores
formas que precisa manter seu dom em segredo. E acima de tudo,
protege aqueles ao seu redor.
Os outros
personagens não ficam atrás. Abe é um sobrevivente da II Guerra
Mundial, era apenas um bebê quando foi encontrado por Abgail
(namorada de Henry na época que foi enfermeira na guerra) e Henry.
Foi adotado pelos dois e foi criado como filho do casal, ainda vive
com Henry em seu antiquário. Jo e Hanson são os detetives do
Departamento de Homicídios que investigam os casos em que Henry
trabalha. Jo é uma mulher forte e determinada, que evita sentir algo
desde a morte de seu marido. Hanson é do tipo que se faz de durão
mas é um bom homem, sempre intrigado com o fato de Henry descobrir
detalhes antes dele. Lucas é o legista assistente, sempre divertindo
com sua carência e vontade de se enturmar. A Tenente Reece comanda
essa turma com punhos de aço, é a forma de mantê-los na linha mas
também sabe ser compreensiva. E ainda temos o vilão Adam, que só
revela sua identidade na metade da temporada mas sempre mantém um
mistério.
Cada caso
faz Henry relembrar algum momento de sua vida, o que muitas vezes nos
faz viajar pela história mundial. Em especial sobre a II Guerra e
até um passeio pela Paris dos anos 1920, com direito a uma rápida
aparição de Ernest Hemingway e Salvador Dali. E essas viagens no
tempo nos mostram que os tempos podem até mudar, mas as pessoas
continuam as mesmas. Capazes de lutar e fazer o que acharem certo
pelos seus motivos, tantos para o bem quanto para o mal. O que também
continua igual é o desejo de viver, a esperança de construir um
mundo melhor. E de encontrar pessoas com quem partilhar isso.
Confesso
que posso ter motivos um tanto pessoais para ter me apegado tanto a
Forever. Estava num momento ruim, triste, quando a série
surgiu. Pode parecer piegas, mas uma história com nuances de
esperança em cada episódio muitas vezes fez com que eu me sentisse
melhor. Mas além disso, mesmo que não houvesse esse motivo, existem
vários motivos pra sentir esse cancelamento. O elenco é brilhante,
e acredito que a trama teria conteúdo para pelo menos quatro
temporadas. Todavia, porque o público iria querer uma história
bonita, leve e com certa profundidade no ar por alguns anos?
Mas assim
como na série, há esperança. Nos últimos anos muitas séries
foram salvas por serviços de streaming. Das que eu assisto apenas
Community conseguiu isso, mas isso é assunto pra outra hora.
O fato é que existem campanhas para que o Netflix salve
Forever. Tanto no Twitter com a hashtag #SaveForever
quanto com petições e enquetes.
Tento não me iludir, mas o resultado parcial parece favorável e
espero que dê certo.
“Já vi muita morte, muita dor, muito sofrimento. Mas também já vi muita vida. Muita beleza, muita admiração. Não é o número de anos que vivemos que importa. Nossas vidas se somam para uma série de momentos. Não sabemos nem quando e onde acontecerão. Mas ficam conosco, marcando nossas almas eternamente. O problema com viver por 200 anos não é a solidão, dor ou a perda. Claro, são essas coisas. Mas o que realmente te pega é quando a vida para de surpreender você. Passei a minha vida toda estudando o corpo humano, e posso dizer com certeza científica que o que nos mantém vivos, mais importante que sangue e oxigênio ou mesmo amor... É a esperança.”
-Henry Morgan