Uma
história sobre livros e pessoas.
Um
dos muitos escritores com quem estava em dívida era Carlos Ruiz
Zafón, e sua tão elogiada trilogia O
Cemitério dos Livros Esquecidos
era
a que mais provocava curiosidade em mim. Adquiri o box da Editora
Suma das Letras
e,
como de costume com séries completas, conferi praticamente um livro
atrás do outro. Foi o período de uma leitura poética e profunda em
que me emocionei, ri, torci, vibrei e em muitos momentos fiquei
apreensiva.
Passeamos
pela Barcelona da primeira metade do século XX, onde a guerra
espalha
o
medo e a morte é um fantasma de quem ninguém consegue se esconder.
Mas existe um lugar onde as pessoas que valorizam o conhecimento
podem ter uma espécie de refúgio, o Cemitério dos Livros
Esquecidos. Esse lugar é o esconderijo de todos os livros renegados
e esquecidos pela humanidade, guardados por pessoas que queriam
salvá-los. Quem o visita pela primeira vez pode resgatar a obra que
quiser, e todos os visitantes tem suas vidas drasticamente mudadas.
A
trilogia é composta pelos títulos A
Sombra do Vento,
O
Jogo do Anjo
e
O
Prisioneiro do Céu.
Tecnicamente, os livros contêm histórias independentes, mas
conectadas por alguns arcos e personagens, o que faz com que possam
ser conferidos em qualquer ordem como o próprio Zafón diz no
prefácio do terceiro livro. Eu os li na ordem de publicação, em
que os citei. A impressão que tive é que os dois primeiros podem
sim ser alternados, mas o último deve realmente ser lido por último
por ser o “menos independente”. Falarei um pouquinho sobre cada
um para explicar melhor.
Em
A
Sombra do Vento
conhecemos
Daniel Sempere ainda criança e acompanhamos seu crescimento e
amadurecimento entre 1945 e 1956. O menino perdeu a mãe ainda muito
pequeno e foi criado pelo pai em meio a inúmeros livros na livraria
da família, a Sempere & Filhos. Certa madrugada seu pai o leva
para conhecer o Cemitério dos Livros Esquecidos, onde Daniel resgata
A
Sombra do Vento,
de Julián Carax, e encontra nele o melhor livro que leria em toda a
sua vida. Ele decide ler a obra completa de Carax e acaba por
descobrir que todos os exemplares desapareceram, bem como seu autor.
Começa uma jornada cheia de obstáculos e suspense que marca a
transformação de menino em homem de Daniel onde ele conhecerá o
amor, a inveja, o ódio e a amizade.
Com
O
Jogo do Anjo
voltamos
um pouco no tempo, entre as décadas de 1920 e 1930, e vemos David
Martín. Um homem ferido e desiludido depois de tanto ser magoado
profissional e amorosamente. Não conseguiu se tornar o escritor de
renome que sonhava, perdeu a mulher que amava para seu mentor e
melhor amigo e se vê muito doente. Ele enxerga a possibilidade de
mudar tudo isso quando aparece em sua vida um estrangeiro chamado
Andreas Corelli, que lhe faz uma proposta de trabalho aparentemente
irrecusável. David vê sua saúde melhorar milagrosamente, mas
descobre um pouco tarde demais que o trabalho que aceitou tem um
preço muito caro. E, assim como o leitor, vê que nem tudo é o que
parece ser a primeira vista.
O
Prisioneiro do Céu
faz
as duas tramas anteriores convergirem rumo a solução de alguns
mistérios. É 1957, Daniel está casado há um ano e seu amigo
Fermín está prestes a se casar também. Tudo está basicamente bem,
até que um homem estranho entra na livraria quando Daniel está
sozinho e compra um exemplar caríssimo, mas o deixa na loja com uma
dedicatória para Fermín, e este não vê outra saída se não
contar para o amigo a verdade sobre o tempo em que esteve na prisão
de Montejuic. Daniel acaba descobrindo muitas coisas sobre seus pais
e que Fermín esteve cuidando dele desde muito antes de conhecê-lo.
E ainda há muito o que quer saber.
De
todos, A
Sombra do Vento
foi
o que mais me transmitiu a sensação de uma trama independente.
Mesmo que lido como livro único ele apresenta uma história ampla e
completa, é repleto de reviravoltas e traz um epílogo que mesmo
deixando um gostinho de quero mais também serviria perfeitamente
como encerramento. Já O
Jogo do Anjo,
apesar
de também apresentar uma história completa, revisita personagens e
lugares do livro anterior. David frequentava a Sempere & Filhos
quando era comandada pelo avô – que o levou ao Cemitério dos
Livros Esquecidos – e pai de Daniel, e conheceu também sua mãe,
Isabella. E O
Prisioneiro do Céu
não
só amarra as tramas anteriores como se encaixa entre o último
capítulo e o epílogo do primeiro livro. Deixando ainda a impressão
de que a história pode ser continuada.
Como
esse último livro ainda me deixou com a impressão de que há algo
em aberto, até mais que os outros dois, fui pesquisar a respeito.
Encontrei um conto chamado Rose
of Fire
que
explica a origem do Cemitério dos Livros Esquecidos, mas não foi
traduzido para o português. Mas continuei procurando sobre um
possível quarto livro e encontrei menções de que Zafón teria dito
em entrevistas que estava trabalhando nele, embora não tenha
encontrado as tais entrevistas. Nem informações no site oficial do autor. Todavia, ao acessar a página oficial de O
Cemitério dos Livros Esquecidos
encontra-se
a frase (em tradução livre) “por
qual porta deseja entrar no Cemitério dos Livros Esquecidos?”
e
quatro fechaduras ao invés de três. O que faz acreditar nessa
possibilidade.
A
verdade é que seria muito bom ter mais uma oportunidade de se
embrenhar por esse mundo. Não só pela maravilhosa história que é
entre muitas coisas uma declaração de amor aos livros, mas por seus
personagens bem construídos e críveis. Que mostram o que há de
melhor e pior no ser humano. Fermín é de longe meu favorito, ele
simplesmente brilha nas páginas e me fez rir muito com seus
pensamentos e teorias. Daniel é um personagem delicioso de se ver
crescer pois nos faz lembrar dos erros e acertos que nós mesmos
cometemos nessa fase. Isabella é uma ótima personagem e é uma pena
que só apareça ativamente em um livro. E por aí vai.
A
narrativa e a capacidade criativa do autor são outros pontos a se
destacar. As obras são narradas em primeira pessoa por seus
protagonistas, A
Sombra do Vento
e
O
Prisioneiro do Céu
por
Daniel e O
Jogo do Anjo
por
David. Há ainda flashbacks
narrados
por outros personagens ou em terceira pessoa. Zafón usa de uma
estrutura poética quase lírica, mas ainda assim muito fluida. É
fácil e bonito de ler. Mescla com perfeição momentos leves e de
suspense, fazendo reviravoltas inimagináveis. Fazendo até de um
narrador pouco confiável como David alguém que se quer acompanhar.
O
Cemitério dos Livros Esquecidos
é
daquelas séries em que você acaba gostando mais de um livro que de
outros, mas em conjunto se completa de tal forma que não há como
dizer que algo foi desnecessário. É uma história rica, metódica,
envolvente e que nos faz pensar sobre as pessoas e o mundo que nos
rodeia.