Ser ou
não ser humano?
A série
já dividia opiniões antes mesmo de estrear pelo velho motivo “não
é inovadora”. Qualquer um é capaz de reconhecer que robôs
policiais não são nenhuma novidade, mas isso não é totalmente
relevante. O que é de fato relevante é se o enredo é bem
conduzido, e, no caso de uma série policial, se os casos são bem
montados. Particularmente gostei muito do que foi mostrado em Almost
Human, mas com algumas ressalvas.
Nessa 1ª
temporada de treze episódios a trama teve um desempenho ótimo.
Apenas uns três episódios foram medianos, mas nada realmente ruim.
Os casos foram instigantes, e a tecnologia aplicada (tanto para
cometê-los quanto para resolvê-los) ao mesmo tempo que parece
absurda nos faz pensar se não estamos mesmo caminhando para isso.
Como uma arma com tiros guiados por um GPS que segue o DNA do alvo,
ou uma cirurgia plástica feita por nanorrobôs que alteram o DNA e
assim não deixam nenhuma cicatriz.
Mas além
dos androides e nanotecnologia o que me agradou muito foram o cromos,
humanos geneticamente modificados ainda no útero para serem
perfeitos em tudo. Beleza, saúde, inteligência... Os cromos tem
tudo isso em nível máximo, e até formam um tipo de sociedade a
parte. A Detetive Valerie é um deles, e é menosprezada por seus
semelhantes por ter escolhido a carreira policial. Afinal os cromos
são gênios natos. Criados para serem cientistas revolucionários,
artistas renomados, super atletas, e não ter profissões ditas
“comuns”. Mas Valerie escolheu ajudar as pessoas de perto. Isso
levanta a questão do que nascemos ou fomos criados pra fazer e o que
escolhemos.
Claro que
o ponto alto sempre será a dupla Kennex e Dorian, os “quase
humanos” que dão título à série. Em um primeiro vislumbre isso
parece se dirigir apenas a Dorian, afinal ele é um androide com com
um software chamado de “alma sintética”. Mas Kennex com
todos seus traumas e acessos de raiva por vezes parece menos humano
que seu parceiro robótico. Todavia, o humano que praticamente deixou
sua humanidade de lado e o robô de uma série que deu defeito
formaram uma grande dupla. Auxiliando um ao outro em sua panes e
falhas no sistema. Mesmo que as vezes precisem da intervenção da
Capitã Maldonado ou de Rudy.
Não dá
pra falar dos dois sem mencionar o desempenho de seus interpretes.
Karl Urban é perfeito principalmente quando Kennex usa do sarcasmo
pra esconder o que realmente sente. A cena na terapia de controle da
raiva foi épica. Mas quando se trata de Michael Ealy, aí é que
está o segredo da série. Já o tinha visto na finada Common Law
e em filmes como Ladrões e Sete Vidas, sábia que é
um ótimo ator. Só que aqui em Almost Human ele tem dado tudo
de si. Ealy faz Dorian parecer o robô que ele é mas ao mesmo tempo
o humano que foi programado pra ser. É difícil de explicar. E o que
dizer dos dois Dorians no 1x06 (Arrhythmia) que quase levou
Kennex a loucura total? Ou quando Dorian deu defeito e só falava
coreano. Sem falar quando Dorian começa a cantar só pra irritar
Kennex. Bennie and the Jets nunca mais será a mesma música.
Mas nem
tudo são flores, e a série pecou na pior hora em que poderia pecar:
no season finale. Não digo que foi ruim, foi até muito bom. Mas
sabe aquela tensão do início ao fim e o plot de explodir cérebros
e querer arrancar o próprio coração que o season finale precisa
ter? Não teve. Almost Human teve sim ótimos plots mostrados
no decorrer da temporada. Como a própria noiva de Kennex que se
revelou uma traidora da Nação e o tratamento que ele faz para
recuperar as memórias do dia do incidente. Mas principalmente o
retorno de Danica, uma DRN super avançada que sozinha causou um dos
maiores massacres e que levou os demais DRNs a ficarem loucos, e o
Dr. Nigel, o cientista criador dos DRN e MX. Sem falar do Muro, que
não foi totalmente explicado. Esses três elementos foram
apresentados no 1x09 (Unbound), mas absolutamente nada foi
resgatado no season finale.
A única
coisa que diz respeito a trama central que foi abordada no season
finale foi a aprovação de Dorian para continuar ativo e parceiro de
Kennex, o que foi muito legal, e saber um pouco sobre o passado do
pai de Kennex como policial. Isso foi bom, mas não de fazer
questionar como viver os próximos meses até o retorno da série.
Isso é indispensável, ainda mais se audiência anda meio capenga,
como é o caso de Almost Human. O difícil é saber de quem é
a culpa. Me recuso a pensar que foi de JJ Abrams, quem acompanhou
Alias, Lost, Fringe e Person of Interest
sabe como essas séries tiveram seasons finales nada menos que
fodásticos. O mesmo digo de J H Wyman, que conduziu brilhantemente
os últimos anos de Fringe. Só não posso defender a FOX.
A emissora tem o péssimo hábito de interferir em suas produções e
até alterar a ordem cronológica dos episódios. Fringe e
Touch são bons exemplos de séries que sofreram desse abuso.
Mas em Almost Human não se contentaram em alterar um ou dois
episódios como nas duas que citei, mas mudaram quase TODA a ordem da
temporada. Vejam abaixo como foi a exibição dos episódios e como
deveria ter sido entre parênteses:
1x01
Pilot
1x02
Skin (1x05)
1x03
Are You Receiving? (1x06)
1x04
The Bends (1x07)
1x05
Blood Brothers (1x08)
1x06
Arrythmia (1x03)
1x07
Simon Says (1x10)
1x08
You Are Here (1x02)
1x09
Unbound
1x10
Perception (1x04)
1x11
Disrupt
1x12
Beholder
1x13
Straw Man
Percebam
que dos treze episódios oito foram exibidos fora de ordem. Aí você
diz “ah, mas foram só fillers”. Admito que todos foram
fillers, mas implicou em descobrirmos coisas muito tarde ou antes da
hora. Um bom exemplo são os cromos que nos deveriam ter sido
apresentados no 1x04 e não 1x10. Não, nada disso interfere no
season finale. O 1x13 era pra ser mesmo o 1x13. O que questiono é:
Straw Man é mesmo o final da temporada ou FOX
engavetou o verdadeiro season finale? Pois como episódio ele foi
ótimo, mas não como encerramento de temporada.