Uma
história de vida.
Exploring & Travelling Theme - Michael Giacchino
Há dez
anos atrás um homem abria os olhos no meio da selva. Desnorteado.
Perdido. Sem entender bem o que tinha acabado de acontecer. Só o que
ele entendia naquele momento era o que seu instinto lhe dizia. Correr
em direção aos gritos, procurar quem precisasse de ajuda. Esse
homem se chamava Jack, e ele estava prestes a começar a maior
jornada de sua vida. Bem como todos os espectadores que acompanharam
essas cenas em 22 de Setembro de 2004 e nos dez anos depois disso.
É um
tanto estranho pensar que já se passou uma década desde a estreia
de Lost, e ao mesmo tempo muito bom saber que vivemos
intensamente uma década marcada por uma das maiores (possivelmente a
maior) e marcantes obras televisivas de todos os tempos. Muitos podem
dizer que isso é exagero, que é apenas uma série de TV. E pra
alguns pode ter sido mesmo. Mas a maioria sabe do que estou falando.
Lost não se transformou em um grande marco à toa. Isso
aconteceu porque a série trouxe mais do que o que queríamos ver.
Mostrou o que sentimos. Disse o que precisávamos ouvir.
Sim,
apesar de sua mistura de ficção científica e misticismo, Lost
retratou o ser humano e a vida de forma mais realista do que muitas
produções ditas “espelhos” da vida real. Ver aqueles
personagens, aquelas pessoas tão parecidas comigo e com você
passando por situações aflitivas foi algo impossível de não se
identificar. Nunca sofri um acidente de avião, nunca precisei caçar
minha própria comida, nunca tive que fugir de um monstro de fumaça
e muito menos viajei no tempo. Mas já me senti perdida, frustrada,
cética. Precisando me encontrar. Ver aquelas pessoas passando por
tais situações foi como ver a si mesmo dentro delas.
Por isso
pode se dizer que o abrir de olhos de Jack no episódio piloto é
também o de quem assiste. O despertar para algo novo. Renascer para
uma jornada de evolução. Não só Jack, mas Kate, Sawyer, Hurley,
Charlie, Claire, Sayid, Sun, Jin, Ben, Desmon, Juliet, Locke e todos
os outros personagens evoluíram de forma que nos serviram de guia
nessa jornada. Nos enxergamos em seus erros, aprendemos com suas
novas chances. Então não é que Lost nos tenha feito
evoluir, mas nos mostrou como evoluímos. E fez isso com uma
fidelidade impressionante.
Lost
foi acima de tudo uma história de vida e morte. E daí que nem todas
as respostas foram dadas? Não é exatamente assim na vida? Passamos
boa parte do tempo procurando por explicações plausíveis e
sentidos lógicos e acabamos chegando ao fim do caminho sem nem
metade deles. Acho que foi isso que Lost quis mostrar.
Passamos a vida nos questionando sobre por quê alguns se importam
tanto com o poder, por que alguns adoecem, por que outros se curam,
qual é o sentido de tudo e nos esquecemos de viver com aqueles que
importam. E quando nos damos conta disso as vezes já é tarde. Pelo
menos Lost terminou respondendo o que era relevante, quantas
pessoas podem dizer isso de si mesmas?
Claro que
os mistérios, as perguntas, foram o que movimentaram e causaram
rebuliço entre os fãs. Os responsáveis pelo grande sucesso. Mas
pense um pouquinho, você teria se importado tanto com esses
mistérios caso não tivesse sido cativado tão profundamente pelos
personagens e visto como eles eram afligidos pelos tais mistérios?
Creio que não. Queríamos que as questões fossem resolvidas para
que os personagens pudessem viver enfim. Mas eles já estavam
vivendo, evoluindo. E nos ensinando tudo isso.
Lost
me marcou tanto por ter sido minha grande companheira em uma fase que
precisei crescer e evoluir muito. Me serviu de espelho, inspiração
e consolo. Então me irrito um bocado quando alguém vem criticar
Lost pra mim em particular e muitas vezes no simples intuito
de me provocar não só por que estão criticando minha série
favorita, mas porque não entender o quão Lost é importante
pra mim significa não estar disposto a me conhecer direito. Cada um
tem algo especial que o marcou e o ajudou a seguir adiante em um
momento difícil, um amuleto, um livro, um filme, uma banda ou até
mesmo um time de futebol. Eu tive Lost.
Ainda
tenho muito o que viver, enfrentar, errar, aprender e evoluir. E com
isso sempre lembrarei de Lost, de seus personagens que me
foram (e continuam sendo) tão queridos e que me mostraram e
ensinaram tanto. Sempre pensarei neles, no que fariam. E em cada
momento que isso acontecer serei ainda mais grata a Lost, por
ter entrado em minha vida. Cumprindo sua função como minha constante. Estamos celebrando dez anos, e que venham
vinte, trinta, cem! Eu já não estarei mais aqui, mas certamente
pelas próximas gerações virão mais que se deixarão marcar por
essa história inesquecível.