O
primeiro desafio de Better Call Saul na qualidade de spin off
foi vencido: trilhar seu próprio caminho ao passo que continuou
mantendo-se fiel ao público da série que lhe deu origem. A produção
conquistou boa audiência e boas notas em sites especializados, ter
9,2 no IMDb não é pra qualquer um. Se servir como parâmetro,
Breaking Bad possui 9,5 e The X-Files (pra quem não
sabe, Vince Gilligan atuou como produtor executivo desta por 5
temporadas) possui 8,8. Mas claro, boas notas não vem sem um
trabalho bem feito.
Em muitas
ocasiões, com Jimmy batalhando para ser um advogado de sucesso e
honesto, ficou difícil imaginar como se tornou o trambiqueiro Saul
Goodman. Embora o fato de que toda vez que ele tentava fazer a coisa
certa e alguém o impedia somado ao que ele já usava esse pseudônimo
para dar golpes quando mais jovem fossem dando pistas sobre isso.
Assim acompanhamos essa transformação do jeito que deveria ser.
Lenta, sútil e com uma boa virada de jogo na hora certa.
Em
paralelo à transformação de Jimmy, descobrimos mais sobre o
passado de Mike. Em alguns momentos os dois fatores se mesclavam em
sintonia, e as vezes o último até ganhou mais destaque. Todavia,
Mike sempre foi um personagem muito interessante e tudo que sabíamos
sobre ele até então vinha de relatos do mesmo ditos em Breaking
Bad, sempre nos deixando mais curiosos a seu respeito. Então ver
e descobrir mais sobre sua história foi mais que um sonho realizado.
O 1x06 (Five-O) foi um episódio simples mas com uma
profundidade soberba. Um pai que se sente culpado pela morte do
filho... Não é à toa que se tornou um homem fechado e carrancudo.
E tudo isso foi, aos poucos, ajudando a entender como Jimmy e Mike
vieram a trabalhar juntos.
Mas
voltemos a Jimmy, que é o fio principal dessa meada. Durante um bom
tempo vimos Howard como o vilão da história, o advogado arrogante
que jamais aceitaria o cara com diploma a distância como sócio e
nem como concorrente à altura. Principalmente quando a HHM tomou o
caso do irritante casal Kettleman e do asilo
Sandpiper sem nem aceitar sua colaboração nesse segundo. E embora
Chuck tenha parecido bastante suspeito ao se “arriscar” para
fazer um ligação no meio da madrugada, não foi pequeno o choque de
descobrir que ele estava por trás de tudo. Impossível não sentir
as dores de Jimmy ao ouvir Chuck menosprezar e desvalorizar seus
esforços para se tornar alguém melhor, sendo incapaz de mudar de
ideia e se arrepender. Mesmo com Jimmy fazendo tudo por ele e sendo o
único que levou a sério sua “doença”. Nem Caim faria algo tão
grotesco.
Verdades
ditas e esclarecidas, vimos Jimmy voltando a Illinois e tendo uma
semana de arromba com seu antigo parceiro de golpes Marco. Isso fez
de boa parte do season finale um episódio bom mas não excepcional.
Foi legal e divertido ver os dois aplicando os mais variados golpes,
mas até então nada parecia muito promissor. Mas então Marco morre
durante o último golpe antes de Jimmy voltar para seus clientes, o
que foi um balde de água fria em tanta animação. Como se nosso
querido personagem não pudesse ser feliz por muito tempo. Exceto que
sua querida amiga e aparente paixão platônica Kim liga dizendo que
o caso Sandpiper ficou muito grande para a HHM, tiveram que pedir
ajuda de outro escritório que estava interessado em Jimmy. Parecia
sua salvação, e talvez pudesse ser mesmo.
Tudo
ficou de repente muito bom e perfeito, e confesso que por dois ou
três minutos só fiquei pensando o que daria errado e quem puxaria
seu tapete dessa vez. Mas aí veio a grande virada! Prestes a agarrar
essa nova chance, Jimmy parou um momento e pensou em tudo que passou
até então. As oportunidades arrancadas, a traição do irmão, a
morte do amigo... Então deu meia volta e questionou Mike de por que
diabos não ficaram eles com o dinheiro que os Kettleman roubaram. E
se Mike assumiu não ter feito isso porque foi contratado pra fazer
um trabalho e cumpriu o acordo, Jimmy concluiu que sabia o que o
tinha impedido e nunca iria deixar impedi-lo novamente. Assim nasce
Saul Goodman.
Esperava
que a transformação total viesse mais tarde, talvez até em
consequência de um acontecimento trágico. Embora a morte de Marco,
que certamente foi um grande fator contribuinte, talvez possa se
encaixar nessa categoria. Mas fico satisfeita que tenha sido assim. A
1ª temporada foi boa, talvez não tenha tido tantas aparições
surpresa quanto o esperado mas ao menos cumpriu seu papel. E a 2ª
promete ser ainda melhor, com a construção do Saul Goodman que
conhecemos. Mal posso esperar. Que venha mais Better Call Saul!