Título:
Os Deixados para Trás
Autor:
Tom Perrota
Edição:
1/2012
Editora:
Intrínseca
Páginas:
317
Sinopse:
O
que aconteceria se, de repente, sem nenhuma explicação, pessoas
simplesmente desaparecessem, sumissem no ar? É o que os perplexos
moradores de Mapleton, que perderam muitos vizinhos, amigos e
companheiros no evento conhecido como Partida Repentina, precisam
descobrir. Desde o ocorrido nada mais está do mesmo jeito — nem
casamentos, nem amizades, nem mesmo o relacionamento entre pais e
filhos. O prefeito da cidade, Kevin Garvey, quer acelerar o processo
de cura, trazer um sentimento de esperanças renovadas e propósito
para sua comunidade traumatizada. Ainda que sua família tenha sido
desfeita com o desastre: sua esposa o deixou para se juntar a um
culto cujos membros fazem voto de silêncio; seu filho, Tom,
abandonou a faculdade para seguir um profeta duvidoso chamado Santo
Wayne; e sua filha adolescente, Jill, não é mais a dócil estudante
nota dez que costumava ser. Em meio a tudo isso, Kevin ainda se vê
envolvido com Nora Durst, uma mulher que perdeu toda a sua família
no 14 de Outubro e continua chocada com a tragédia, apesar de se
esforçar para seguir adiante e recomeçar a vida. Com emoção,
inteligência e uma rara habilidade para enfatizar os problemas
inerentes à vida comum, Tom Perrotta escreve um romance
impressionante e provocativo sobre amor, conexão e perda.
Comentários:
Assim que
vi Os Deixados para Trás na sessão de
lançamentos do Skoob, lá em meados de 2012, fiquei curiosa
com o enredo e com vontade de lê-lo. Quando soube que o livro seria
adaptado em uma série da HBO intitulada The Leftovers
(nome original do livro) com Damon Lindelof na produção, essa
curiosidade só aumentou. Faltando poucas semanas para a estreia da
série, finalmente consegui ler o livro. Infelizmente, minhas
expectativas não foram alcançadas.
Em 14 de
Outubro varias pessoas simplesmente desapareceram sem deixar
vestígios, como se simplesmente tivessem se desmaterializado. Seria
o Arrebatamento previsto pela Bíblia? Não se sabe. A única coisa
de que se tem certeza é que o evento, chamado de Partida Repentina,
deixou marcas nos que ficaram. Naqueles que queriam uma explicação
do porquê seus entes queridos foram levados ou do porquê eles
ficaram. Naqueles que queriam algo pra acreditar, ou simplesmente um
motivo pra seguir em frente. Ou deveriam querer.
Acompanhamos
basicamente os efeitos da Partida Repentina na Família Gavery da
cidade de Mapleton, que três anos depois do evento está totalmente
dividida. Não perderam nenhum familiar, quem partiu foi a filha de
um amiga. Depois dessa amiga se unir a uma ceita chamada
Remanescentes Culpados, que tem como marca as vestes brancas e o voto
de silêncio, Laurie Gavery a segue. Isso logo depois que Tom, seu
filho mais velho, decide abandonar a faculdade pra seguir um homem
que todos chamam de Santo Wayne. Kevin e Jill ficaram juntos, mas pai
e filha mal se falam. Enquanto Kevin tenta seguir a vida da forma
mais normal possível assim como cumprir seus deveres de prefeito,
Jill se tornou uma adolescente sem expectativas e melancólica. E
ainda temos Nora, uma mulher que perdeu o marido e filhos e tem um
breve relacionamento com Kevin.
A
premissa é interessante, e a trama realmente cumpre o que traz no
título. Focando no sentimentos dos que ficaram, que foram deixados
pra trás. Mas o livro não foi bem sucedido nisso e me decepcionou
profundamente. Esperava que houvesse uma grande discussão sobre se o
que aconteceu foi de fato o Arrebatamento, e isso até acontece no
início. Sobretudo porque os levados não eram apenas cristãos ou
religiosos. Foram cristãos, judeus, muçulmanos, ateus,
homossexuais... Pessoas de todos os tipos. Então achei isso ótimo,
pois a Bíblia apenas diz que o Arrebatamento separará “o joio do
trigo”. Sim, removeria os crentes da Terra, mas crentes em quê já
é outra questão. E seria uma bela cutucada nos fanáticos, pois o
que faz uma pessoa boa nada tem a ver com crenças, orientação
sexual ou qualquer coisas que muitos fanáticos condenam. Coisa que
acredito, inclusive. Mas logo mostrou que os levados não tinham nada
de especial, com falhas de caráter tão grandes quanto os que
ficaram.
Na
contracapa há um comentário do consagrado Stephen King dizendo que
se lido como metáfora para o 11 de Setembro e a situação em que os
EUA ficou, é um “diagnóstico depressivamente preciso”.
Aí eu até concordo, pois durante toda a leitura tive a sensação
de que as pessoas tinham morrido em uma grande catástrofe ao invés
de evaporado sem explicação aparente. Outra grande falha pra mim.
Morte e desaparecimento causam dor, mas são dores diferentes. Morte
causa luto, mas você sabe o que aconteceu com a pessoa e dentro de
um tempo (que varia pra cada um) pode-se seguir em frente. Mas com um
desaparecimento a dor é justamente por não saber o que houve. A
ansiedade por um telefonema da polícia dizendo que seu ente foi
encontrado, vivo ou morto. Qualquer notícia é melhor que o
desconhecimento. Quantas vezes vemos famílias esperando por notícias
de filhos que desapareceram há 30 ou 40 anos? Se as pessoas sumissem
sem deixar vestígios como no livro então, com a possibilidade
remota de aparecerem da mesma forma que sumiram, seria motivo pra
deixar muita gente louca. Eu provavelmente ficaria. Isso me incomodou
principalmente em Nora, que mais parecia estar em luto por um
acidente de carro do que perturbada com o fato da família ter
desaparecido durante o jantar.
Além
disso, os personagens não me agradaram. Admito, são bem construídos
e reais. Mas me irritou em estremo o fato de não questionarem, não
querem descobrir o que aconteceu. Se havia uma explicação
científica, sobrenatural ou o quê fosse. Teve uma especulação ou
outra, mas não passou disso. Então teve aqueles que se conformaram
com algo que nem acreditavam e tomaram atitudes inaceitáveis. Como
Laurie, que não era religiosa mas aceitou de pronto o
“Arrebatamento” e se juntou aos RC em lembrança da filha da
amiga abandonando a própria filha que precisava dela. O único
personagem de que realmente gostei foi Tom, além de ter uma
personalidade simples e cativante foi o único que conseguiu me
passar os sentimentos de quem passa por um evento inexplicável.
Ainda teve a situação em que percebeu estar depositando sua fé na
causa errada, e por ele podemos ter um pouco de noção das
consequências no resto do mundo. Já que os demais personagens ficam
apenas em Mapleton.
Em termos
de narrativa, posso dizer que foi uma boa experiência. Tom Perrota
tem uma prosa intimista e fluida, que prende o leitor mesmo nas
partes dos personagens mais chatos. A narrativa é feita na terceira
pessoa, se revezando no ponto de vista dos personagens principais e
expressando nitidamente suas emoções. O livro é dividido em cinco
partes, com capítulos variando entre medianos e longos. O
espaçamento e diagramação são simples e confortáveis. A Editora
Intrínseca, responsável pela publicação no Brasil, traz duas
opções de capa. A azul com sapatos femininos da foto acima, que é
a que tenho, e a rosa com sapatos masculinos. Comprei a azul porque
além de achar mais bonita estava mais em conta, por motivo que
desconheço. Enfim, em matéria de edição não tenho do que
reclamar.
Mas
apesar de ter gostado da narrativa de Perrota, me incomodou a forma
como falou de religião. Entendo que ele queira mostrar como a fé
pode se transformar em fanatismo facilmente, como a linha que separa
as duas coisas pode ser tênue. Mas nenhum personagem (talvez com a
exceção de Tom depois da prisão do Santo Wayne) mostrou o que pode
ser chamado de fé saudável. Ou são fanáticos ou totalmente
céticos. O que me fez sentir falta de uma grande discussão
filosófica que o livro poderia ter. Penso se todos os livros do
autor tem a mesma abordagem.
Acho que
desviei um pouco do que deveria ser a resenha, mas foi a forma que
encontrei de explicar porquê o livro me desagradou tanto. Em resumo,
o autor acertou em mostrar os sentimentos das pessoas que ficaram mas
errou em não fazer com que essas pessoas procurassem por
explicações. Discussões cientificas, místicas e filosóficas
agregariam muito à trama. E se era pra falar de fé, o verdadeiro
crente é aquele que questiona. Se ainda pretendo assistir The
Leftovers? Verei o piloto em consideração ao Damon Lindelof, e
porque acredito que ele acrescentará na adaptação o que senti
falta no original. Pois caso contrário, a série não durará. Mas é
esperar até dia 29 pra ver.