Uma
temporada completamente relevante.
Quando
Jonathan Nolan e JJ Abrams começaram Person of Interest, não
imaginaram que alguns anos depois o então funcionário da CIA e
contratado da NSA Edward Snowden revelaria ao mundo a existência os
programas de vigilância e antiterrorismo do Governo. Bem como a
invasão de privacidade em que implicam. Coincidência ou não, isso
certamente afetaria na trama. Que graça teria uma história sobre um
programa secreto do Governo quando na vida real todo mundo tem
conhecimento de sua existência?
Se os
escritores tiveram que mudar o plano ou apenas antecipar alguns plots
que estavam reservados para o futuro eu não sei, só sei que deu
muito certo. Mais ação, mais drama, mais conspiração, mais ficção
cientifica, mais da vertente distópica que a série traz. Tudo
meticulosamente engrandecido. Assim como a trama que passou a ser
menos policial e mais política. O bom é que essa mudança foi
gradativa e regular, sem soar forçada ou um ato desesperado de fazer
o enredo soar coerente, como se vê em muitas séries.
Era um
tanto óbvio que para a Machine poder tomar a importância que essa
nova fase requeria, o plot sobre a corrupção da polícia
precisava acabar. O que talvez estivesse predestinado junto a isso
desde o início e me recusei a enxergar é que quando esse momento
chegasse, Carter teria que morrer. Na hora foi um choque, mas agora,
em retrospecto, me parece claro como água que isso aconteceria.
Carter mais do que todos queria acabar com aquilo, queria justiça
por Cal. Pela sua carreira e tudo mais. Acabou como heroína e
tragicamente última vítima daqueles que lhe tiraram tanto. A morte
de Carter foi sofrida tanto para os demais personagens como para os
fãs de Person of Interest. Não me lembro da última vez que
a morte de um personagem foi tão impactante e dolorosa. E justo
quando Carter e Reese tinham se declarado? Mas ela foi vingada, e
jamais será esquecida.
Shaw não
veio para substituir Carter, ela tem seu próprio lugar na equipe. No
início da temporada até achei que teríamos milhares de ótimos
momentos com Carter, Shaw e Zoe. Mas no fim das contas acabou sendo
apenas Shaw e Root, o que não é nada ruim. Pelo contrário. É
ótimo ver as duas juntas em ação! A forma como são opostas e ao
mesmo tempo semelhantes fica muito bem na tela. E se uma amizade
masculina é chamada de bromance, uma feminina seria sismance?
Porque é isso que a relação de Shaw e Root está pra se tornar.
Fui obrigada a rir no season finale quando Shaw disse que
precisava ir atrás de Root ou ela morreria, sendo que até bem pouco
tempo ela mesma a mataria.
Nossos
rapazes estão cada vez mais apaixonantes, porém mais sofredores.
Foi dolorosos ver Reese tão abatido e querendo fugir. Mas afinal,
foi a segunda vez que perdeu uma mulher que amava. De forma tão
trágica quando ele salvava tantas vidas. Fusco e Finch tentaram
trazê-lo de volta, mas ele precisava querer voltar. Acabou que a
Machine, justo de quem ele queria fugir, fez Reese querer voltar.
Como não amar aquele episódio do avião? Finch não ficou pra trás
em questão de dilemas. A máquina que criou para salvar o mundo se
mostrou um verdadeiro perigo. Mas o que fazer? Deixar o Samaritan
destruir a Machine? Destruir ambos? Ou não deixar que nada atravesse
o caminho da sua criação? Finch precisou ver sua amada Grace em
perigo para entender que a Machine precisa continuar. Mesmo depois da
ocasião em que a Machine quis que uma vida fosse tirada. Esse foi o
ápice da relação O Médico e o Monstro entre Finch e a
Machine. Já Fusco que perdeu a colega e também quase perdeu a vida,
continua sendo um bom reforço e com ótimos comentários
sarcásticos.
Person
of Interest pode ter aberto mão do lado policial, tenho a
impressão que essa vertente será ainda menos presente ou talvez
ausente na 4ª temporada. Isso não quer dizer que não tivemos
ótimos casos. Quão surpreendentes foram as reviravoltas com o casal
que queria matar um ao outro? Como não achar formidável a pequena
espiã que definiu melhor que ninguém os sentimentos de Shaw e até
conquistou um pouquinho de seu afeto? Quantas emoções despertou a
ex-atleta chinesa que precisava roubar raras obras de arte e artigos
históricos para salvar a vida de sua filha? E não foi hilário ver
Reese e Shaw infiltrados em um reencontro de turma, com Shaw
aceitando todos os galanteios de um doutor interpretado por Nestor
Carbonell? Esses e outros casos foram brilhantes e provaram cada vez
mais a genialidade da série.
Mas
voltando à Machine, com Control, Vigilance, Samaritan e o Governo
tudo ficou mais complicado e interessante. Complicado no sentido de
que se você não dedicasse total atenção ao que acontecia, acabava
perdendo algo vital. Também pudera. Como Root gosta de dizer, tanto
a Machine quanto o Samaritan são como deuses. Quem controla o
sistema controla o mundo. Ou seria assim se os softweares de
inteligência artificial não fossem tão autônomos. Aí é que
entra a peculiaridade dessa vertente distópica apresentada em Person
of Interest. Temos dois deuses em guerra, disputando pelo domínio
do mundo. A Machine prioriza a segurança da humanidade relevante ou
irrelevante, o Samaritan faz o que é programado mas é mais
poderoso. Quem ganha essa?
Finch e
Control escaparam do julgamento de Peter Collier e agora precisam se
esconder do Samaritan No fim da temporada vimos que Finch, Reese,
Shaw e Root tiveram que se dispersar e adotar novas identidades. A
melhor forma de se esconder é ficando a vista, sendo irrelevantes. A
questão agora é como irão se reencontrar e qual será o próximo
passo. A guerra só está começando.